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A versão final


Em que momento nasce à paixão? É nas primeiras impressões, nas primeiras trocas de olhares, ou seria o toque, aquele alcance no outro que ainda não esteja muito claro sobre o sentimento, mas aquele gesto singelo e até então despretensioso, num curto espaço de tempo, possa revelar e significar algo maior?


Estou me referindo ao filme Me chame pelo seu nome, de Luca Guadagnino, que merecidamente ganhou o Oscar com o melhor roteiro adaptado. Cheguei a assistir na estreia e é por isso que releituras são importantes: porque sempre passam alguns detalhes despercebidos, ainda mais quando se trata de um filme com tamanha sensibilidade e com enredo extremamente subjetivo. E não satisfeito, precisei ler o livro também, porque gosto de compreender os silêncios que apenas os livros revelam.


O filme se passa no norte da Itália, quando Elio (Timothée Chalamet), um garoto de 17 anos, vive mais um tedioso verão na casa de seus pais. Entre livros, tocar piano, nadar e sair com uma garota de sua idade, sua vida se resume nada mais que isso. No entanto, a natureza é assim: pega nossa fraqueza quando menos se espera. Isso acontece com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um acadêmico que vai para ajudar na pesquisa do pai de Elio.


A confiança de Oliver, sua maneira de falar, de se impor, acaba logo de início incomodando Elio – é sempre assim, aquilo mais irrita no outro pode despertar algo em nós. Aos poucos eles vão construindo uma amizade e deixa transparecer um sentimento, olharem que se cruzam, toques que assustam, impressões que despertam.


Surge o primeiro beijo, os silêncios interrogativos, a insegurança que toda paixão provoca, a sedução que faz com que rimos pelos cantos dos lábios. Um sentimento puro que foge do convencional. Ali ninguém estava esperando nada, não havia uma carência a ser suprida, não era apenas uma diversão de adultos. Talvez a sexualidade fosse uma questão, mas não era o centro, nem para os pais de Elio, que logo identificaram o que estava acontecendo ali e, curiosamente, não viram um problema. Eram expectadores assim como nós que do lado de cá se emociona com esse acontecimento inesperado e ainda, sim, visceral.


Um amor levado às últimas consequências, quando um passa usar a roupa do outro, um passa a ser o outro, difundindo assim suas identidades: me chame pelo seu nome, porque eu sou você e você é eu. Um eu te amo dito na singularidade daquele sentimento.


No livro André Aciman, com sua rara sensibilidade, revela muito mais sobre Oliver e Elio. Porque as questões deles também são as nossas. E talvez sejam mais corajosos. Não era uma questão, para Elio, quando aconteceu, mas, sim, o que mudou. A certa altura do livro quando Elio tem uma conversa com pai sobre o que viveu, o pai diz que a maioria das pessoas teima em viver como se tivessem duas vidas: uma é a maquete e a outra a versão final. Numa tentativa de mostrar ao filho a oportunidade que a vida tinha entregado a ele, ainda que fosse na “maquete”.


Elio e Oliver eram dois jovens que estavam dispostos a sentir. Que perceberam que algo tinha acontecido no instante em que se viram, e mesmo com todas as dúvidas entre eles, foram adiante. Em tão pouco tempo, os dois ficavam em silêncio um ao lado do outro sem que isso fosse um estranhamento. De frente para o mar, quando havia mar, na cama, quando havia cama, contemplavam um ao outro sem que isso fosse exageradamente intencional ou exageradamente banal.


É isso que o amor faz: leva-nos para um lugar desconhecido, da qual passamos a gostar. E quando, por alguma contingência acaba, ou achamos que acabou mas permanece ali, no pensamento que não cessa, nos anos que avançam, é natural que em algum momento a compreensão chegue anunciando que nunca mais voltaremos a ser os mesmos. Mesmo que o tempo afaste. Mesmo que mudemos de país. Mesmo que por circunstâncias adicionais afastados pelo imprevisto: a “nossa versão final” tem referências de quando tudo começou e permanece, dentro de nós, até fim.